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Primeira
Informação sobre o que houve...
Na
quarta feira, dia 17, saio pelas ruas com meu irmão colando os
cartazes em todos os
locais. Delegacias, hospitais, corpo de bombeiros, comércio
local, ônibus,
postes, lojas...cada um
colocado por mim.
Pra você
ter uma idéia, em apenas dois dias (terça e quarta), eu enchi
por duas vezes o tanque de
gasolina. Rodávamos como
loucos , desde bem cedo, até noite, alta madrugada, pelos
bairros, e cidades vizinhas colando cartazes e dando buscas nos
hospitais....
Chega a notícia de que um corpo foi achado jogado
dentro de um bueiro de esgoto, na
estrada que leva até a minha casa, (trajeto que ele faria quando saiu de casa)
O pavor
tomou conta de todos nós. Meu irmão saiu para o IML de
Niterói, eu peguei a
estrada na direção de Itaboraí, para ir em outro IML,
na tentativa de ver o tal corpo.
No meio
do caminho...toca meu telefone...é meu irmão dizendo que o
corpo tinha sido mandado para Niterói, e que não era
ele...Desligo aliviada.
Retornando
para casa, toca mais uma vez o telefone...Era a Lu, me dizendo:
"Mãe,
vem pra casa agora, porque vai ligar uma moça que sabe o
que houve
com
Ju....Vem
agora, agora mãe..."
Voamos!!! Quando entrei no portão minha filha grita..."ela está
no telefone,
vem
logo"....Largamos
carro aberto no portão, ligado, porta escancarada
e entramos
correndo, pego na
extensão e lá está a moça aos prantos
nos dando um
pista....
"
O Mauricio, foi atraído para uma cilada, por causa de uma
namorada, ele está
no jacaré, ainda está
vivo. Eu estou me
arriscando, mas ele era como um filho
para
minha mãe. Imagino o que sua mãe
deve estar sentindo.
Façam alguma
coisa, ajudem ele, ele ainda
esta vivo, estão barbarizando ele,
está muito machucado, mas vivo, diz pra procurarem
no jacaré....
Eles vão matar ele"
Tive uma crise histérica.... Queria subir a favela maldita na
mesma hora e só sair
de lá morta, ou
trazendo o corpo do Ju....Agora eu tinha uma pista de por onde
começar a procurar meu
filho e trazê-lo de volta prá casa.
Mais uma vez a esperança
toma conta de todos nós, sua família.
Saio na hora rumo a delegacia. Sou super mal atendida pelos
plantonistas, nem ouvem o que
tenho a dizer, ocupados demais vendo novela na televisão do
plantão, me mandam voltar
pela manhã...
Saio de lá e desesperada entro no Batalhão de
Policia Militar, em prantos pedindo
ajuda..."Me digam o que
fazer...Por favor"
Só
quero saber qual procedimento deveria adotar, meu filho está lá...muito
machucado, mas
ainda está vivo, e pode morrer se demorarmos a agir.
Estou
completamente fora de mim, desesperada, e sem ter quem me
ajudasse,
me orientasse.
Sensibilizados
com meu desespero...sentam comigo e me mandam ir ao Méier, um
bairro do
Grande Rio, próximo a tal favela, e procurar a delegacia da
área, lá
eles me explicariam o
que fazer. Eu disse: vou agora, agradeci e saí, eram 23:30 e
lá fomos eu, meu irmão e minha cunhada.
Esta
Delegacia fica distante de onde moro, mais ou menos uns
quarenta minutos.
Chegando
lá, não sabíamos qual delegacia.
Entramos na primeira, fui
atendida por um policial
que envergonha a classe
e a nossa
cor.
Um negro
homossexual....Que desmunhecava o tempo todo
e fazia caretinhas
para uma policial que lá estava, num
comportamento altamente desrespeitoso
com a pessoa que ali fosse
em busca de ajuda.
(Não há descriminação quanto ao
homossexualismo, muito menos em relação a cor)
Perguntei
se poderia nos atender...Ele
quis saber qual o assunto, eu digo:
Meu
senhor, a história é comprida e acho se eu resumir será melhor, para você
entender.
Ele se vira muito cinicamente
e me diz "Aiii... é bom
mesmo...Responde ele fazendo caretinhas para a colega : porque
saio às oito horas da manhã..." Isto era por
volta da 1:30 da madrugada...
Cansei e desci do
salto...Armei o barraco.
Meti a mão na bolsa, puxei a carteira, e me
identifiquei dizendo: aqui não me
apresento como tal, porque sou uma mãe em desespero procurando
por seu filho que a esta
hora pode estar sendo morto aqui perto na favela do jacaré, e
isto para o senhor ainda é motivo de gracejos?
Meu
senhor um policial, é uma pessoa que lida com pessoas, e tem
a obrigação de respeitá-las...Hoje,
para o seu divertimento, sou eu quem está aqui, amanhã poderá ser a sua mãe, também
sofrida procurando por você, me respeite, não como
advogada, mas como ser humano, como mãe.
Todos
abaixaram a cabeça...O silêncio
só era quebrado pelos meus soluços...
Pronto!!!
Acabaram-se os trejeitos.
Dra.
Não chore assim a senhora acaba passando mal... Me
desculpe, olha não é esta a delegacia responsável pela área do
Jacaré, mas vou
lhe ensinar como chegar na 25 DP.....Se acalme, tudo vai correr
bem, e a Dra
acha seu filho...
Pegamos a indicação e seguimos para lá, nos perdemos,
pedimos mais explicações, voltamos
a nos perder...Acabamos na entrada da favela...(que eu nem
nunca tinha visto de
perto), lá haviam vários camburões com policiais do
serviço de repressão ao
tráfico.
Eles ficam na
entrada, mas não sobem o morro. Expliquei o que houve e me indicaram qual o caminho a
seguir...
Imagine,
eu em pé, olhando para cima e vendo o local onde estaria meu
filho, seria só subir algumas ladeiras e
vielas, e o
encontrar, vivo ou morto e o trazer para casa....
Mas a
burocracia, o terror, o despreparo de nossa polícia, não
permitem que isto seja
feito. Um procedimento básico, simples,
completamente racional, mas não para o Rio de
Janeiro.
Aquilo
é o submundo, o inferno(como disse um Delegado amigo...)
Aquilo
lá é o Câncer do Rio de Janeiro.
A fábrica
de mortos...O espelho da impunidade.
Eu estava há cinqüenta metros da entrada do local onde meu
filho estaria em cativeiro...impotente,
pode imaginar o desespero que isto dá?
Me pergunto:Será que
nossas autoridades não percebem o quanto isto destrói uma família?
Quantos
inocentes mais terão que morrer, para que alguém faça
algo?
Saí de lá arrasada, com o
coração apertado, nem adianta tentar dizer o que senti....
Não
conseguiria expressar em palavras.
Fomos para a delegacia
responsável pela área do Jacaré.
Chegando
lá, mais uma barreira. Eles nada poderiam fazer a não
ser esperar que a delegacia de origem, mandasse o
expediente para eles, sem este nada poderia ser feito.
Foram atenciosos, mas não poderiam fazer nada, além de me
ouvir.
Espalhei cartazes por lá, entreguei aos policiais e na
delegacia quando pedi para colocar lá
também...Tinham acabado.
Peguei o carro e voltei até ao escritório,
isto no meio da
mesma madrugada.
Chegando
lá imprimi mais cartazes e de volta ao Méier. No meio do
caminho meu carro apresentou
problemas.Liga...Anda...Desliga, anda....Finalmente, com
muito custo encostamos na
porta da Delegacia.
Colei os cartazes, e fiquei esperando o
guincho da seguradora vir buscar meu carro....Dia
clareando....Eu no bairro onde fica situada a favela,
onde meu filho estava preso....coração sangrando, corpo
cansado...Emocional detonado.
Finalmente
às 8 horas da manhã, saímos de lá de volta a São Gonçalo onde moro. Meu carro no alto
do guincho e nós impotentes em um táxi mandado pela
seguradora.
Eram
apenas 5 dias do seu desaparecimento.

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